A etiqueta do discurso

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Quando transmitimos aquilo que pensamos e buscamos convencer os outros, devemos lembrar que as pessoas estão sempre sujeitas aos sentimentos mais mesquinhos e a certos tipos de fragilidades das quais não poderíamos suspeitar, o que torna certas virtudes mais necessárias do que outras, dependendo do objetivo traçado. Não tenho dúvida de que todos nós gostamos de ouvir pessoas sinceras e de que a sinceridade é muito mais fundamental do que a prudência, em se tratando de uma conversa entre amigos. Mas, e quando não é? Existem muitas etiquetas, muitas “pequenas éticas” em muitas maneiras de se expressar –mas todas elas podem ser, a sua maneira, um Versace

Não houvesse a distinção entre discursos, não haveria por que sermos tão formais em determinadas circunstâncias e completamente informais em outras. Não importa saber dos motivos agora, mas eu mesmo, neste exato momento, por falar talvez a muita gente que não me conheça, devo estar soando artificial a quem de fato conheço, se as pessoas próximas a mim tiverem a oportunidade de ler este texto. Por outro lado, quem não me conhece pode me reputar, lendo este texto, como um alto acadêmico… ou um baixo pretensioso.

Eis um exemplo de como um discurso pode adquirir nuances que fogem aos propósitos de seu autor. Ou à realidade do que foi dito e de quem seja, de fato, o enunciador. Alguns, em virtude disso, moldam seus discursos às suscetibilidades de seus interlocutores, o que não significa que não possam causar uma impressão, apesar de tudo, negativa naqueles a quem o seu texto não se destina ou aos quais não consegue atingir. Nesse sentido, os políticos são um belo exemplo daqueles que se ocupam mais da maneira de se dizer algo do que daquilo que propriamente dirão.

Mas os políticos possuem interesses escusos e, o mais das vezes, reprováveis, pois suas intenções nem sempre são de simplesmente “desarmar” as pessoas de seus preconceitos para torná-las mais propensas a absorver suas ideias. Políticos, grande parte das vezes, procuram chamar a atenção para o que falam não pelo conteúdo do que foi dito, mas pela capacidade de atrair simpatias. No âmbito literário, a preocupação com a forma de dizer também ganha prioridade, bem como, em geral, o desprezo por acolitar “seguidores intelectuais”; mas, ao contrário do que ocorre com o discurso político, as idéias são expostas seguindo uma ética inerente ao discurso estético, quase que como um espelho do subconsciente de seu autor e também um reflexo particular do estilo literário em voga.

Tendo isso em vista, não se pode dizer, de fato, até que ponto um literato é sincero ou não, ou um político. Augusto dos Anjos, apesar dos poemas densos e pessimistas, era tido por pessoas próximas como uma pessoa afável; por outro lado, muitos políticos, de discursos lindos e altruísticos, se mostram em público pessoas de moral irrepreensível… Quem é o mais sincero? Sem ser agente da Polícia Federal ou apresentador do TV Fama, o que se pode dizer com segurança a respeito? É que os políticos, por causa de suas responsabilidades sociais, devem ser prudentes naquilo que dizem, para não ofender os melindrosos; e que os escritores podem fazer uso artístico da palavra como bem entenderem… apesar de sua suposta “responsabilidade social”.

Isso é um indício de como conceitos como sinceridade, prudência e virtude, conseqüentemente, são relativos no mundo da retórica. Um político é um discursante virtuoso se faz uso da palavra de maneira mais aprazível ao ouvinte; um literato também, embora isso seja uma conseqüência natural de ser sincero consigo mesmo, não necessariamente agradável a terceiros. Já no caso do discursante mais objetivo, o “cientista social”, que procura chamar atenção para o que diz no sentido de demonstrar sua veracidade, a sinceridade é tão importante quanto a prudência, em todos os sentidos; alguém que escreve um texto dissertativo não pode zelar simplesmente pela coerência interna daquilo que diz, no que respeita tanto a seu modo de pensar quanto à organização do texto: precisa também se preocupar em conduzir sem sobressaltos aquele que lê.

É uma tarefa aracnídea, de fato. Exige oito patas e múltiplos olhares. Sobretudo em se considerando a diversidade do público leitor. Eu poderia fazer discursos incendiários e inflamar aqueles que compartilham das mesmas idéias que eu; mas eu poderia também fazer discursos mais eufemísticos, para não despertar a cólera daqueles a quem eu poderia convencer. Qual seria o uso mais virtuoso: o mais sincero ou o mais prudente? “Sincera”, para quem não sabe, é uma palavra que une os vocábulos “sem” e “cera”; mas por quê? Porque, no teatro primitivo, os atores se utilizavam de máscaras de cera para interpretar suas personagens. Logo, o uso “sem cera” da palavra seria correspondente àquele que não camufla sua real natureza, independentemente das boas intenções do dramaturgo.

Nesse sentido, fazer um discurso equilibrado, imparcial, seria uma insinceridade. De certo ponto de vista, eu concordo. Mas é preciso levar em conta que estávamos falando de teatro, de dramaturgos, amantes da beleza da vida, que buscam levar seu público, aqueles que se identificam com sua obra, à catarse –o convencimento seria um objetivo secundário, portanto. Já o sábio, amante da verdade, se faz de seu texto certa forma de teatro, o faz para conduzir as partes contrárias ao convencimento; e porque essa sua ausência de orgulho denota um desvelo pela verdade absolutamente sincero, seu discurso se revela uma “falsidade” de real virtude.

 

A Fome de Todos Nós

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Depois do best-seller de memórias Uma comovente obra de espantoso talento, e do romance You Shall Know Our Velocity, o jovem autor americano Dave Eggers estréia como contista em A fome de todos nós. Em 15 contos, o escritor trata da fome dos seres humanos, que não sabem bem o que desejam – mas desejam – e querem passar da superfície do mundo – ainda que, humanos, também não saibam bem como. Dois amigos criam uma relação amorosa, por alguns dias, mesmo sabendo que ela não terá futuro, e nem é tão desejada; uma mulher sobe a montanha Kilimanjaro em busca de um triunfo na vida, apesar de não entender o que a levou até ali; um senhor luta para que sua morte ocorra no meio de um evento festivo, repleto de conhecidos e desconhecidos.

Em A fome de todos nós, Dave Eggers continua a usar as viagens como metáfora da busca, mas sem que ela seja óbvia e se torne um clichê. É nos pensamentos e nos atos mais cotidianos que o autor mostra essa fome de que mesmo os personagens não se dão conta em certos momentos. Suas vidas não são extraordinárias, e suas viagens também não, ainda que possam parecer, à primeira vista. Mais do que isso, as viagens têm fim. Porém, no Egito, na Tanzânia, na Escócia, na Costa Rica ou mesmo numa estrada na Califórnia, os personagens não conseguem deixar para trás suas questões, que lhes acompanharão aonde quer que eles vão.

Apesar de terem seres humanos em busca de transcendência, seja numa montanha ou numa visita ao amigo que tentou suicídio e está no hospital, os contos de Eggers vão da ironia à melancolia, das histórias curtas, emblemáticas, e mesmo experimentais, a narrativas longas, com personagens construídos detalhadamente. Às vezes, bastam duas páginas para falar sobre um homem no jardim, à espera da mulher; ou sobre uma mãe em casa, à espera do filho adolescente. Quando não estão sozinhos, os personagens criados por Eggers sofrem para se relacionarem. São personagens no limite, ainda que nada objetivamente grave lhes afete.

Em histórias inéditas e outras publicados nos EUA antes do lançamento de A fome de todos nós – dois contos foram consideráveis notáveis no Best American Short Stories 2004 –, Eggers prova que é um dos mais talentosos escritores de sua geração, e veio para ficar. Com seu estilo cru, que não deixa a delicadeza de lado, ele consegue falar sobre o ser humano até quando o protagonista é Steven, um cachorro falante que pensa sobre sua vida enquanto se afoga num rio. Ou quando insere diálogos entre seres inanimados ou metafóricos. Deus e o oceano conversam enquanto dois amigos tentam encontrar, um no outro, algum sentido para suas vidas.

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Quarteto Osesp abre temporada de récitas no domingo

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O Quarteto Osesp –formado por um dos spallas e por três chefes de naipes da orquestra original– faz sua primeira apresentação do ano no domingo (11), às 17h, na Sala São Paulo, no centro de São Paulo.

A récita conta com a participação do pianista carioca Jean-Louis Steuerman.

No repertório, estão obras de Beethoven (“Quarteto nº 13 em Si Bemol Maior, Op.130″) e Ernst von Dohnányi (“Quinteto com Piano em Mi Bemol Menor, Op.26″).

O quarteto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo é formado por Emmanuele Baldini (primeiro violino), Davi Graton (segundo violino), Giovanni Pasini (viola) e Johannes Gramsch (violoncelo).

Sala São Paulo – pça. Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos, centro, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3223-3966. Dom. (11): 17h. Ingr.: R$ 22 a R$ 50. Não recomendado para menores de 7 anos. www.ingressorapido.com.br.

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O viver (e)reto

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Não seríamos humanos se fôssemos macacos. Parece óbvia a máxima, mas muita gente insiste em viver recurvado, preso aos ditames irracionais de algum bando e às arbitrariedades de alguma espécie de “macho-alfa”. Não, não estou falando de um remake do Tarzan: estou falando da história original da sociedade contemporânea, com todos os supostos privilégios advindos de sua “civilidade”. De fato, vai mundo, volta mundo e o movimento de rotação da Terra não consegue alterar a perspectiva de alguns, desde sempre presos a uma visão planificadora do mundo, ainda que as caravelas de outrora e seus preconceitos de agora tenham desaparecido para sempre no horizonte. Parece piada, mas muitos não sabem ainda assimilar o conhecimento adquirido e as portas escancaradas pela globalização, preferindo fazer de cada nova tecnologia uma ultrapassada clava de ossos, instrumento de uma sociedade vetusta, ainda em estado bruto, dividida em tribos rivais hoje pateticamente escamoteadas em ternos e palavras falsamente cordiais.

Ter opinião própria passou a ser sinônimo de arrogância ou, em alguns casos, de subversão, na visão canhestra de alguns seres humanos cujos arreios ideológicos se tornaram parte orgânica de sua natureza. Basta citarmos, por exemplo, uma frase célebre de Che Guevara e não faltarão aqueles com pedras nas mãos para acusar-nos daquilo que supuseram entender de nossos propósitos. Melindrosos, eles enxergam o mundo de maneira estática: existe o lado de e o lado de ; levada às últimas conseqüências, esse tipo de visão recusa, ataca e extirpa do meio intelectual até mesmo o pensamento que, talvez, contrarie o seu. A humanidade, no modo de entender deles, é mera massa de manipulação e deve ter os dois pés presos no planeta que eles mesmos constroem e ter as cabeças apenas como anteparo para seus cabelos bem ajambrados de homens de “bem”.

Fosse assim que funcionasse a ciência e Einstein, com seus cabelos rebeldes e com sua língua de fora, nem sequer teria criado a Teoria da Relatividade, um desafio ao universo mecânico de Newton, na época do cientista alemão ainda universalmente aceito. Fosse assim que funcionasse a ética e Martin Luther King não teria desafiado o status quo, com sua cabeça de cabelos crespos bem arrumados, sim, mas sem deixar de arrumar idéias dentro. Fosse assim que funcionasse a mente e eu, um direitista, não poderia me utilizar da frase de um Che Guevara para aquecer minhas idéias, que correm soltas, independentes até mesmo de minhas convicções. Fosse assim, por fim, que funcionasse a vida e talvez não estivéssemos aqui, agora.

Não, não acredito em evolução. Não, não acredito em revolução. Mas creio que o ser humano pode chegar a ser muito mais do que imagine ser –muito mais do que o imaginaram ser – para além das utopias e dos moldes tradicionais. Existe quem ouça sentenças de Ernesto Guevara, como esta, e se escandalize, por motivos religiosos; reduzindo as possibilidades de interpretação ao mínimo, divisam a recusa por “ajoelhar-se” como impiedade ou como uma afronta ao temor por Deus… Há, porém, aqueles que enxergam na reprodução da sentença guevariana uma incitação ao caos e à revolução, um libelo anárquico de recusa de toda autoridade constituída… Pode ser que Guevara tenha querido dizer tudo isso –e é o que parece, embora eu não possa afirmar com convicção, pois não sou telepata. O que eu sei dizer com certeza é que eu não quero dizer necessariamente o que outros dizem, mesmo em citações, e nem faço parte de nenhum clã revolucionário ou conservador, mas do clã da humanidade. Pois, ao contrário da condição simiesca predominante no pensamento ocidental, verdadeiramente revolucionária e perene é a condição humana, a qual não se dobra a conformismos de qualquer tipo.