Da verdade, de verdade
- Por Henriques Braga 0 comentáriosExistem, em filosofia, muitas convicções e muitos grupos dispostos a defender seu ponto de vista com unhas e dentes. Isso torna, de certa forma, a busca da verdade uma posição política, isto é, uma organização de idéias em diferentes ideologias em função de uma organização prévia (e muitas vezes insuspeita) de indivíduos em grupos cujos interesses específicos refletem uma preocupação em comum de seus integrantes com a transformação da realidade. Mas essa pode ser uma batalha inócua e titânica, se os diferentes grupos perdem de vista o ponto de equilíbrio, a razão, por privilegiar a própria vaidade… ou a ganância.
Por exemplo: em que medida o interesse de transformação da realidade é o ideal? Qual era o interesse dos ingleses, só para citar um caso conhecido, na abolição da escravatura? Haviam passado pela Revolução Industrial há pouco; precisavam de mercado consumidor. Sei que seria leviano, mesmo assim, questionar a legitimidade de seus ideais. Mas os ingleses administraram a África do Sul até meados do século passado…
Tudo isso, se reforça a tese do grau de politicagem inerente à formulação de teorias, muito mais explicita a necessidade de análise crítica contínua. Hoje se defende um plebiscito sobre a descriminalização do aborto; se a idéia passar pelo crivo da democracia e for aprovada, é de praxe em nossa sociedade tomá-la como verdade absoluta (ou necessária, o que dá no mesmo…). Sobre isso dizia muito acertadamente Francis Bacon: “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”, e embora ele estivesse se referindo, em seu tempo, à autoridade eclesiástica, sua sentença não destitui de poder despódico também outras instituições ou outras formas dominantes do pensar, ou do agir político.
A propósito, uma forma de pensar particularmente influente quase sua contemporânea foi o Iluminismo, que curiosamente elegia Bacon como um de seus santos mártires-patronos, malgrado a forma de proceder dos ilustrados. Voltaire dizia sobre Francis que não havia filosofia natural antes do inglês (e levava em consideração a história da Europa depois do cristianismo, deixo claro); mais tarde, talvez elucidado sobre a biografia de Santo Alberto Magno, reformulou sua afirmação, sem perder a pose e as entrelinhas no entanto; passou a dizer que, antes de Bacon, ficava-se sujeito à validação pela autoridade. Em que pese isso não ser um argumento, de fato, contra a existência de filosofia natural cristã, se Voltaire tivesse procurado se instruir mais, saberia que a maior autoridade intelectual da Igreja, São Tomás de Aquino, desde a escolástica portanto, já aconselhava: “não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão e isto confia-o à memória”. Talvez Voltaire quisesse evitar a fadiga, ou o azar de achar algo que pudesse comprometer a sua tão bem estruturada “luz natural”, criteriosamente construída para combater a ignorância, o preconceito e a superstição… morreu, aliás, aperfeiçoado, pedindo perdão pelo erro de suas idéias anti-clericais, de súbito iluminado por uma luz –evidentemente muito mais natural ao seu espírito, presumo, pelas circunstâncias…
Sobre essas idiossincrasias na compreensão do conceito de “verdade”, lembro-me muito do que li uma vez num livro da Marilena Chauí. Dizia ela que a verdade dos romanos (veritas) era bem diferente da verdade dos gregos (aletheia); enquanto aquela se referia às coisas que foram, esta dizia respeito às que são. A verdade veritas, portanto, dependia muito da credibilidade do narrador, de sua autoridade moral; e a verdade aletheia dependia da coerência interna dos argumentos. Em comum, as verdades eram tidas por inequívocas quando, sempre que possível, o discurso refletia o observável, o factual.
Nem sempre, contudo, o homem pode ter um negativo seguro do mundo natural, como testemunha ocular da verdade. Pode ter um negativo de si mesmo, como ser racional. Assim, revestido da armadura crítica, sofisticada ao nível da argúcia epistemológica, pode chegar a demonstrar o que não é, ao passo que os ideólogos fazem de suas espadas apaixonadas a razão para suscitar invejas, cóleras e contendas, fazendo da história humana um verdadeiro campo de batalha das paixões desordenadas. “Guarda sua espada por hora, Pedro”, já dizia Jesus, o Sereno.

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