O viver (e)reto
- Por Henriques Braga 0 comentários
Não seríamos humanos se fôssemos macacos. Parece óbvia a máxima, mas muita gente insiste em viver recurvado, preso aos ditames irracionais de algum bando e às arbitrariedades de alguma espécie de “macho-alfa”. Não, não estou falando de um remake do Tarzan: estou falando da história original da sociedade contemporânea, com todos os supostos privilégios advindos de sua “civilidade”. De fato, vai mundo, volta mundo e o movimento de rotação da Terra não consegue alterar a perspectiva de alguns, desde sempre presos a uma visão planificadora do mundo, ainda que as caravelas de outrora e seus preconceitos de agora tenham desaparecido para sempre no horizonte. Parece piada, mas muitos não sabem ainda assimilar o conhecimento adquirido e as portas escancaradas pela globalização, preferindo fazer de cada nova tecnologia uma ultrapassada clava de ossos, instrumento de uma sociedade vetusta, ainda em estado bruto, dividida em tribos rivais hoje pateticamente escamoteadas em ternos e palavras falsamente cordiais.
Ter opinião própria passou a ser sinônimo de arrogância ou, em alguns casos, de subversão, na visão canhestra de alguns seres humanos cujos arreios ideológicos se tornaram parte orgânica de sua natureza. Basta citarmos, por exemplo, uma frase célebre de Che Guevara e não faltarão aqueles com pedras nas mãos para acusar-nos daquilo que supuseram entender de nossos propósitos. Melindrosos, eles enxergam o mundo de maneira estática: existe o lado de lá e o lado de cá; levada às últimas conseqüências, esse tipo de visão recusa, ataca e extirpa do meio intelectual até mesmo o pensamento que, talvez, contrarie o seu. A humanidade, no modo de entender deles, é mera massa de manipulação e deve ter os dois pés presos no planeta que eles mesmos constroem e ter as cabeças apenas como anteparo para seus cabelos bem ajambrados de homens de “bem”.
Fosse assim que funcionasse a ciência e Einstein, com seus cabelos rebeldes e com sua língua de fora, nem sequer teria criado a Teoria da Relatividade, um desafio ao universo mecânico de Newton, na época do cientista alemão ainda universalmente aceito. Fosse assim que funcionasse a ética e Martin Luther King não teria desafiado o status quo, com sua cabeça de cabelos crespos bem arrumados, sim, mas sem deixar de arrumar idéias dentro. Fosse assim que funcionasse a mente e eu, um direitista, não poderia me utilizar da frase de um Che Guevara para aquecer minhas idéias, que correm soltas, independentes até mesmo de minhas convicções. Fosse assim, por fim, que funcionasse a vida e talvez não estivéssemos aqui, agora.
Não, não acredito em evolução. Não, não acredito em revolução. Mas creio que o ser humano pode chegar a ser muito mais do que imagine ser –muito mais do que o imaginaram ser – para além das utopias e dos moldes tradicionais. Existe quem ouça sentenças de Ernesto Guevara, como esta, e se escandalize, por motivos religiosos; reduzindo as possibilidades de interpretação ao mínimo, divisam a recusa por “ajoelhar-se” como impiedade ou como uma afronta ao temor por Deus… Há, porém, aqueles que enxergam na reprodução da sentença guevariana uma incitação ao caos e à revolução, um libelo anárquico de recusa de toda autoridade constituída… Pode ser que Guevara tenha querido dizer tudo isso –e é o que parece, embora eu não possa afirmar com convicção, pois não sou telepata. O que eu sei dizer com certeza é que eu não quero dizer necessariamente o que outros dizem, mesmo em citações, e nem faço parte de nenhum clã revolucionário ou conservador, mas do clã da humanidade. Pois, ao contrário da condição simiesca predominante no pensamento ocidental, verdadeiramente revolucionária e perene é a condição humana, a qual não se dobra a conformismos de qualquer tipo.

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