Carpe Diem – no dia e na noite dos homens
- Por Henriques Braga 0 comentáriosCarpe Diem é uma expressão em latim que significa “colhe o dia”. Bem própria aos intelectuais helênicos da época áurea, foi transmitida à elite romana e perpetuada ao longo dos tempos através da tradição clássica. Sendo uma espécie de associação por metonímia, conotando a valorização da busca daquilo que está ao alcance dos vivos, sob a perspectiva de seus cultores originais sintetizava um estilo de vida fundamentado no prazer.
Geralmente o Carpe Diem remonta a Epicuro, filósofo grego do período helenístico cuja escola se notabilizou entre nós como uma propugnadora da devassidão. Na verdade, existe certa distorção e preconceito nesse julgamento. Os epicuristas, ao contrário dos estóicos, não enxergavam verdadeiro conflito entre razão e paixão. Ambos, porém, tinham como fim comum alcançar o estado de ataraxia, a tranqüilidade ou imperturbabilidade absoluta, obtida entre outras coisas pela moderação; um estado de espírito que poderíamos associar ao nirvana oriental.
Mais recentemente, no século XVIII, o conceito de Carpe Diem ganhou novas nuances. Os árcades, poetas neoclássicos contrários aos excessos ascéticos do barroco, eram apologistas da satisfação dos sentidos na mesma medida que seus preceptores ancestrais e na mesma proporção de sua postura anticlerical. Não raro o “fingimento” rupestre era tão-somente isto: um verniz classicizante, uma atitude afetada que tinha pouco ou nada a ver com a Arcádia original e seus pastores (mesmo porque a região não é nenhum um paraíso), mas muito ou tudo a ver com a França iluminista, em ponto de ebulição.
Como se vê, o conceito implícito à utilização do termo variou um pouco, na “transição” da antiguidade para a modernidade neoclássica. Se os gregos “colhiam o dia” por consciência da efemeridade do tempo e valorização da experiência prática na aquisição do conhecimento, os árcades eram adeptos do “naturismo” por evasão dos motivos religiosos que impregnavam a cultura urbana de seu tempo, muito embora fossem os filósofos de sua época, por ceticismo, empiristas por excelência.
O naturalismo de uma época agrária se tornou o artificialismo de uma cultura inexoravelmente marcada pelo cristianismo e pela industrialização crescente. Com efeito, a distorção se acelerou vertiginosamente a partir dos oitocentos. Recrudescido o materialismo, a metafísica entrou em crise, desaguando na mecanização do tecido social e na perda do sentido da vida, desacreditadas as respostas de origem religiosa.
Índice das transformações e das angústias do homem moderno são os poemas de Fernando Pessoa. Procurando harmonizar valores tão díspares convivendo intimamente entre si e buscando recuperar um sentido de unidade perdido em meio a um mundo caracterizado pelo caos, Pessoa se valeu muito de um Carpe Diem ao melhor estilo moderno. Seu Ricardo Reis é de uma nostalgia sintomática –assim como o “medievalismo” o fora, para os românticos.
Mas, hoje em dia, eu acho que a valorização do imediato e do ritmo natural dos acontecimentos perdeu muito do caráter de sublimação espiritual inerente ao homem em crise religiosa. Ao menos em parte, passamos dessa fase. O ritmo frenético e desumano da vida contemporânea tem feito com que revisássemos nossos parâmetros. Mais vale buscar ser ou ter ou valorizar o que já temos ou somos? Nesse sentido, o Carpe Diem é uma atitude saudável e se aproxima muito da ataraxia tão almejada por gregos… e troianos.



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