Controvérsias democráticas, controvérsias…
- Por Henriques Braga 0 comentários
Quando meditamos sobre a democracia, talvez imaginemos as pessoas transitando pelas ruas da Atenas gloriosa, observando os atenienses depositarem seus votos nas urnas, sob os aplausos de Sócrates e de outras figuras proeminentes do tempo. Pois é. A história às vezes é tão romântica quanto blockbuster americano. Lembra-se do “descobrimento” do Brasil? Mas vamos primeiro dar uma panorâmica pela Ática, antes de chegarmos aos trópicos e as coisas realmente esquentarem.
De fato, a democracia existiu, de certa forma, na capital grega; mas não da maneira como a viemos conhecer modernamente. Os eleitos para os cargos políticos (que acumulavam responsabilidades do judiciário) eram escolhidos por sorteio. Quanto aos competentes para o voto, só detinham esse direito os cidadãos, ou seja, os homens propriamente nascidos na polis; mulheres, crianças, escravos e metecos (estrangeiros) não participavam diretamente da vida política ateniense.
O termo “democracia”, que costumamos traduzir livremente como “governo do povo” talvez devesse ser entendido como “governo dos bairros”. Porque demes, entre outros significados, era o termo usado para designar as diferentes comunidades de Atenas, ao todo 140, que aliás representavam um governo descentralizado, exercido de baixo para cima na prática.
A democracia ateniense, como se vê, neste último aspecto ao menos era “mais” democrática do que a moderna. E não apenas nesse, como veremos. Porque os debates públicos nas ágoras eram eventos concorridos e vistos pelos atenienses de forma semelhante a um esporte, o que, se por um lado abria ao discurso o precedente de estar repleto de efeitos de retórica e oco de conteúdo, por outro demonstrava claramente o quanto esse povo era afeiçoado aos assuntos do espírito. Com efeito, uma alma talhada nesses moldes tende a ser mais habilitada para decidir sobre questões do intelecto.
Nem por isso, no entanto, as massas atenienses eram menos manipuláveis. Pelo menos era a isso ao que aludiam os intelectuais atenienses (estrangeiros ou não) do tempo, para justificar seu repúdio ao regime democrático. Praticamente todos eles eram antidemocratas, e alguns ainda defendiam um governo aristocrático, tais como Platão e Tucídides. Alegavam que o povo era governado por suas paixões, sendo, portanto, inaptas as massas para decidirem com ordem, racionalmente –ou sem a interferência decisiva de alguém mais preparado que o grosso do povo, um manipulador inescrupuloso.
Fico pensando se não somos, hoje ainda, governados por nossas paixões, pois, ainda que não sejamos massas gregas, “massas” é um conceito político sem nacionalidade. Você se lembra em quem votou para deputado, nas últimas eleições? Eu também não. Talvez eu tenha votado nesse meu candidato por ter ficado impressionado com seu discurso e talvez ele tenha se elegido por fornecer dentaduras e tijolos para gente com menos sutilezas do que eu e mais necessidades elementares.
De qualquer forma, o Brasil nunca viu eleito um digno representante de seus anseios realistas. Elegemos Tancredo, que morreu; acreditamos no Plano Real e nossa nova moeda nunca se tornou o novo dólar; votamos num partido e ele se comportou como outro, depois de empossado. Ninguém nunca foi o David Blane que pareceu. Todos prometem uma Sangri-lá em quatro anos, mas, quando o mandato termina, devolvem-nos a velha Belíndia de quinhentos anos atrás. E mais espoliada.
Será que existe uma democracia de verdade?

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