“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”
- Por Henriques Braga 1 comentárioÀs vezes as pessoas menos religiosas se deparam com mensagens espirituais e as interpretam de forma minimizada, unívoca. Se foi dito que o importante é o amor, que seja. Ou não seja. De fato, não parece haver maiores implicações numa sentença tão simples. Se a sentença é complexa, no entanto, acusam as religiões de serem obscuras com o propósito de manipular, vindo eles, por isso, a cair no terreno do teísmo ou ateísmo, duas das epidemias mais típicas da modernidade. Este é o maior problema do mundo moderno: tem pressa para tudo, até para julgar.
Se soubessem que até mesmo os assuntos mais simples, inerentes a todas as religiões e épocas, são bem individualizáveis se inseridos em determinados contextos, surpreender-se-íam. “Amor”, por exemplo, palavra genérica utilizada para se referir a qualquer tipo de apego, tinha inúmeras formas e significações na Grécia antiga; poderia ser “eros”, se se referisse ao amor carnal entre homem e mulher, “filos”, se falasse da afeição fraterna entre homens, como a irmãos (daí “filantropia”), e “agápe”, se estivéssemos querendo denominar o amor não correspondido. Mais tarde, a tradição filosófica cristã associaria “agápe” ao Primeiro Amor, aquele que parte de Deus e independe de qualquer reconhecimento.
Em relação aos textos sagrados do cristianismo, não há ponto sem nó; uma sentença que soe obscura no Êxodo pode ficar bem clara nos Atos dos Apóstolos, se você tiver paciência para percorrer o caminho. É um caminho que precisou e precisa ainda ser trilhado, se quisermos chegar à “Canaã”, identificada como a Verdade, subjacente ao tempo e à natureza de todas as coisas. O caminho, mesmo por isso, é tortuoso; pode significar 40 anos no deserto ou séculos de exegeses dos textos sagrados.
Mesmo hoje, são muitas as interpretações que podemos fazer das sagradas escrituras, especialmente dos Evangelhos –por motivos óbvios, o ápice da revelação cristã. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus. O que Ele quis dizer, no entanto? Jesus falava através de muitas metáforas e parábolas, sujeitas a equívocos interpretativos; talvez ele quisesse dizer que era preciso se depurar dos erros para conhecê-Lo. Faz sentido se levarmos em conta que a expressão pressupõe outros caminhos, o erro e a morte; e fica mais intrigante ainda se percebemos que há uma gradação na fala de Jesus, ou seja, um recurso estilístico que por si só demonstra a necessidade de percorrer um caminho, que não é bem “um caminho”, mas o caminho, cujo artigo definido individualiza e exclui. Precisaríamos tê-Lo antes conhecido, portanto, para finalmente percorrermos o caminho e reconhecê-Lo; não seria, assim, uma jornada de conhecimento, mas de reconhecimento, circular, de regresso e humildade, renunciando à “Árvore do Conhecimento” e ao paraíso da tentação, o exato oposto da árida Canaã.
Eis aí um exemplo da riqueza das religiões, para além de todos os modernosos preconceitos. Artefatos culturais só alienam se não nos despimos de nosso pequeno mundo particular para conhecermos outros. Se houve e há tirania, sua raiz está na estreiteza e no orgulho humanos, não nas instituições –e se há um caminho de morte a ser evitado, esse é o de nossa mesquinhez.


Comentários
gostei… muito inteligente mesmo seu comentáriao…
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