(R)emendando Erros

- Por Henriques Braga 0 comentários

Quando assistimos a esse multiplicar de selvageria num país cujos índices de educação têm se ampliado, ficamos perplexos. Era de se supor que as pessoas, quando confrontadas com universos culturais diversos, tornassem-se mais civilizadas, convivessem melhor. Entretanto, todo mundo por aqui continua incendiando ônibus, guerreando em estádios de futebol e espancando calouros em universidades. Para completar, e embora as estatísticas oficiais sugiram o contrário, avaliação se não me engano da Unesco põe o Brasil entre os piores em interpretação de textos e matemática. O que será que acontece para um país se tornar tão resistente à razão, à relação física entre causa e efeito?

Se o Brasil não pertencesse ao planeta Terra, acredito que ninguém estranharia. Se não me engano, os gastos com presidiários são muitas vezes superiores aos valores investidos em nossos estudantes. Não obstante, nossos presídios continuam sucateados, ao passo que colégios são abarrotados de computadores e até de aparelhos de ar-condicionado. Para compensar os gastos com segurança, então, marginais são liberados de cárceres lotados antes mesmo de cumprirem a pena correspondente, para parasitar a sociedade; para compensar os índices de reprovação escolar, logo, marginais são transferidos de escola em escola, para ameaçar e matar professores e colegas.

Tudo por aqui tem capa para encobrir a falta de conteúdo, tem folhas para suprir a imperícia das palavras, tem gente (de sobra) para disfarçar o sumiço de cidadãos. Tapete não falta para esconder poeira. O Brasil tem uma das maiores legislações do mundo, mas há tantas contradições e incoerências nela que a Lei mais facilita a má-fé que a aplicação da justiça. Como se não bastasse, embora as pessoas exijam o cumprimento das leis, são elas as primeiras a contrariá-las, em certos casos. De que adianta, por exemplo, a maioridade legal ser diminuída, se os presídios não comportam nem os bandidos “maiores”, e todos, por isso, acabem tendo que ser soltos, mais dia menos dia?

O problema está na gênese, não no parto propriamente dito. Você não pode ensinar alguém a ser ético num lugar onde o imaginário popular elegeu a “Lei de Gérson” como código de conduta universal, por exemplo. Para compensar a inadequação fundamental do brasileiro, as instituições são legitimadas como tábuas da salvação (e contenção) ante nosso dilúvio cultural. Mas “quem poderá nos defender”? A família, a religião, a escola… a Constituição? Tudo isso está frágil e mal estruturado, fundamentado na areia, na orla do caos; não haveria como andar, ter “ordem e progresso” se posta a carroça na frente dos burros.

No Brasil, ainda vale o que Rui Barbosa disse, há muito tempo: Há tantos burros dando ordem em homens inteligentes que às vezes penso que burrice é Ciência. E olha que os burros, naquela época, ainda andavam na frente…

 

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