Quando a ignorância é virtuosa
- Por Henriques Braga 0 comentários
“Daria tudo o que sei pela metade do que ignoro”, dizia René Descartes. É uma das frases mais célebres do famoso pensador francês. E creio representar mais a natureza humana que o Cogito Ergo Sum. Porque o argumento do cogito exclui do âmbito existencial os animais irracionais -e alguns dentre os racionais também. E tanto aqueles quanto estes existem de fato.
Como posso saber se não estou equivocado, se meus sentidos não me enganam, se nada do que existe de fato existe? Não posso. Aceito minhas limitações e faço afirmações somente sobre aquilo que percebo. Querer saber sobre tudo é muito pretensioso, é quase como se declarar deus, atitude típica de quem recebeu muita influência do pensamento renascentista. Querer estar, por si só, imune ao erro, como Descartes o quis, redunda em considerações estapafúrdias sobre assuntos que escapam a nossa compreensão e alcance.
Porque, na verdade, René Descartes não acreditava poder alcançar “verdades absolutas”. Nisso ele se distinguia dos renascentistas. O que ele acreditava poder alcançar eram “verdades necessárias”, aquelas acessíveis aos homens, pois, segundo o francês, a “verdade absoluta” era de domínio exclusivo de Deus. No entanto, se o conhecimento da realidade nos era garantido pela existência de Deus, que preserva sua essência, e se, como afirmava Descartes, deveríamos nos depurar dos enganos, então ele entra em contradição; porque Deus nos esconderia a realidade da realidade ou, por outro lado, como poderíamos crer num deus “enganador”, ao mesmo tempo mentiroso e honesto? Isso parece ir contra sua própria idéia de Deus, de realidade e de conhecimento. René, nesse ponto, procura equacionar o conflito sugerindo a existência de um demiurgo, uma espécie de segundo deus responsável por ludibriar os homens. Nisso ele volta à arrogância do conhecimento absoluto e se assemelha, pela vacilação e pelo obscurantismo, aos renascentistas maneiristas e barrocos.
De qualquer forma, voltando ao assunto principal, você já se perguntou sobre a primazia do ovo ou da galinha? É claro que não. Agir assim é fazer como os cachorros, que correm atrás do próprio rabo, descrevendo círculos. Saber que o ovo veio antes da galinha, ou vice-versa, seria inútil se não fosse impossível, não modificaria em nada nossa vida. Ou a vida de Adão e Eva, porque discutir quem saiu da costela de quem é assunto que não interessa nem a médico-cirurgião ou obstetra, quiçá a clérigos e filósofos…
Mas eu entendo o René. Ele foi um homem de seu tempo, cheio de doutrinas contraditórias procurando conviver harmoniosamente, numa Europa afligida por doenças e guerras. Nasceu e viveu numa época dominada pelos céticos, na qual ou se adotava uma postura radical ou se ficava à deriva, náufrago num mar tempestuoso de dúvidas. E, permanecer na dúvida, havendo tantos homens ainda convictos da salvação eterna, é angustiante.
Dá para entender o porquê de Descartes não conviver bem com o reconhecimento da própria ignorância. Mas ele poderia ter encarado isso de um ângulo mais saudável, como o fez Sócrates, que viveu também numa época de crise epistemológica. Pois o negativismo radical do grego não empalideceu seu amor natural pela virtude –muito pelo contrário. Sócrates permaneceu sábio na própria ignorância, aqui entendida como humildade e mansidão de espírito.
Libertar-se das instituições, como um porto seguro, e refugiar-se em si mesmo, como um ponto arquimediano, é um ato de denodo e revelador de uma personalidade amiga do saber, sem dúvida. Mas se tornar refém de si mesmo, como um demiurgo arrogante, é já um sintoma de desequilíbrio que compromete o caminho do bom senso. René deveria ter ouvido o próprio conselho.

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