Categoria: Pensamentos

A etiqueta do discurso

- Por Henriques Braga 2 comentários

Quando transmitimos aquilo que pensamos e buscamos convencer os outros, devemos lembrar que as pessoas estão sempre sujeitas aos sentimentos mais mesquinhos e a certos tipos de fragilidades das quais não poderíamos suspeitar, o que torna certas virtudes mais necessárias do que outras, dependendo do objetivo traçado. Não tenho dúvida de que todos nós gostamos de ouvir pessoas sinceras e de que a sinceridade é muito mais fundamental do que a prudência, em se tratando de uma conversa entre amigos. Mas, e quando não é? Existem muitas etiquetas, muitas “pequenas éticas” em muitas maneiras de se expressar –mas todas elas podem ser, a sua maneira, um Versace

Não houvesse a distinção entre discursos, não haveria por que sermos tão formais em determinadas circunstâncias e completamente informais em outras. Não importa saber dos motivos agora, mas eu mesmo, neste exato momento, por falar talvez a muita gente que não me conheça, devo estar soando artificial a quem de fato conheço, se as pessoas próximas a mim tiverem a oportunidade de ler este texto. Por outro lado, quem não me conhece pode me reputar, lendo este texto, como um alto acadêmico… ou um baixo pretensioso.

Eis um exemplo de como um discurso pode adquirir nuances que fogem aos propósitos de seu autor. Ou à realidade do que foi dito e de quem seja, de fato, o enunciador. Alguns, em virtude disso, moldam seus discursos às suscetibilidades de seus interlocutores, o que não significa que não possam causar uma impressão, apesar de tudo, negativa naqueles a quem o seu texto não se destina ou aos quais não consegue atingir. Nesse sentido, os políticos são um belo exemplo daqueles que se ocupam mais da maneira de se dizer algo do que daquilo que propriamente dirão.

Mas os políticos possuem interesses escusos e, o mais das vezes, reprováveis, pois suas intenções nem sempre são de simplesmente “desarmar” as pessoas de seus preconceitos para torná-las mais propensas a absorver suas ideias. Políticos, grande parte das vezes, procuram chamar a atenção para o que falam não pelo conteúdo do que foi dito, mas pela capacidade de atrair simpatias. No âmbito literário, a preocupação com a forma de dizer também ganha prioridade, bem como, em geral, o desprezo por acolitar “seguidores intelectuais”; mas, ao contrário do que ocorre com o discurso político, as idéias são expostas seguindo uma ética inerente ao discurso estético, quase que como um espelho do subconsciente de seu autor e também um reflexo particular do estilo literário em voga.

Tendo isso em vista, não se pode dizer, de fato, até que ponto um literato é sincero ou não, ou um político. Augusto dos Anjos, apesar dos poemas densos e pessimistas, era tido por pessoas próximas como uma pessoa afável; por outro lado, muitos políticos, de discursos lindos e altruísticos, se mostram em público pessoas de moral irrepreensível… Quem é o mais sincero? Sem ser agente da Polícia Federal ou apresentador do TV Fama, o que se pode dizer com segurança a respeito? É que os políticos, por causa de suas responsabilidades sociais, devem ser prudentes naquilo que dizem, para não ofender os melindrosos; e que os escritores podem fazer uso artístico da palavra como bem entenderem… apesar de sua suposta “responsabilidade social”.

Isso é um indício de como conceitos como sinceridade, prudência e virtude, conseqüentemente, são relativos no mundo da retórica. Um político é um discursante virtuoso se faz uso da palavra de maneira mais aprazível ao ouvinte; um literato também, embora isso seja uma conseqüência natural de ser sincero consigo mesmo, não necessariamente agradável a terceiros. Já no caso do discursante mais objetivo, o “cientista social”, que procura chamar atenção para o que diz no sentido de demonstrar sua veracidade, a sinceridade é tão importante quanto a prudência, em todos os sentidos; alguém que escreve um texto dissertativo não pode zelar simplesmente pela coerência interna daquilo que diz, no que respeita tanto a seu modo de pensar quanto à organização do texto: precisa também se preocupar em conduzir sem sobressaltos aquele que lê.

É uma tarefa aracnídea, de fato. Exige oito patas e múltiplos olhares. Sobretudo em se considerando a diversidade do público leitor. Eu poderia fazer discursos incendiários e inflamar aqueles que compartilham das mesmas idéias que eu; mas eu poderia também fazer discursos mais eufemísticos, para não despertar a cólera daqueles a quem eu poderia convencer. Qual seria o uso mais virtuoso: o mais sincero ou o mais prudente? “Sincera”, para quem não sabe, é uma palavra que une os vocábulos “sem” e “cera”; mas por quê? Porque, no teatro primitivo, os atores se utilizavam de máscaras de cera para interpretar suas personagens. Logo, o uso “sem cera” da palavra seria correspondente àquele que não camufla sua real natureza, independentemente das boas intenções do dramaturgo.

Nesse sentido, fazer um discurso equilibrado, imparcial, seria uma insinceridade. De certo ponto de vista, eu concordo. Mas é preciso levar em conta que estávamos falando de teatro, de dramaturgos, amantes da beleza da vida, que buscam levar seu público, aqueles que se identificam com sua obra, à catarse –o convencimento seria um objetivo secundário, portanto. Já o sábio, amante da verdade, se faz de seu texto certa forma de teatro, o faz para conduzir as partes contrárias ao convencimento; e porque essa sua ausência de orgulho denota um desvelo pela verdade absolutamente sincero, seu discurso se revela uma “falsidade” de real virtude.

 

O viver (e)reto

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Não seríamos humanos se fôssemos macacos. Parece óbvia a máxima, mas muita gente insiste em viver recurvado, preso aos ditames irracionais de algum bando e às arbitrariedades de alguma espécie de “macho-alfa”. Não, não estou falando de um remake do Tarzan: estou falando da história original da sociedade contemporânea, com todos os supostos privilégios advindos de sua “civilidade”. De fato, vai mundo, volta mundo e o movimento de rotação da Terra não consegue alterar a perspectiva de alguns, desde sempre presos a uma visão planificadora do mundo, ainda que as caravelas de outrora e seus preconceitos de agora tenham desaparecido para sempre no horizonte. Parece piada, mas muitos não sabem ainda assimilar o conhecimento adquirido e as portas escancaradas pela globalização, preferindo fazer de cada nova tecnologia uma ultrapassada clava de ossos, instrumento de uma sociedade vetusta, ainda em estado bruto, dividida em tribos rivais hoje pateticamente escamoteadas em ternos e palavras falsamente cordiais.

Ter opinião própria passou a ser sinônimo de arrogância ou, em alguns casos, de subversão, na visão canhestra de alguns seres humanos cujos arreios ideológicos se tornaram parte orgânica de sua natureza. Basta citarmos, por exemplo, uma frase célebre de Che Guevara e não faltarão aqueles com pedras nas mãos para acusar-nos daquilo que supuseram entender de nossos propósitos. Melindrosos, eles enxergam o mundo de maneira estática: existe o lado de e o lado de ; levada às últimas conseqüências, esse tipo de visão recusa, ataca e extirpa do meio intelectual até mesmo o pensamento que, talvez, contrarie o seu. A humanidade, no modo de entender deles, é mera massa de manipulação e deve ter os dois pés presos no planeta que eles mesmos constroem e ter as cabeças apenas como anteparo para seus cabelos bem ajambrados de homens de “bem”.

Fosse assim que funcionasse a ciência e Einstein, com seus cabelos rebeldes e com sua língua de fora, nem sequer teria criado a Teoria da Relatividade, um desafio ao universo mecânico de Newton, na época do cientista alemão ainda universalmente aceito. Fosse assim que funcionasse a ética e Martin Luther King não teria desafiado o status quo, com sua cabeça de cabelos crespos bem arrumados, sim, mas sem deixar de arrumar idéias dentro. Fosse assim que funcionasse a mente e eu, um direitista, não poderia me utilizar da frase de um Che Guevara para aquecer minhas idéias, que correm soltas, independentes até mesmo de minhas convicções. Fosse assim, por fim, que funcionasse a vida e talvez não estivéssemos aqui, agora.

Não, não acredito em evolução. Não, não acredito em revolução. Mas creio que o ser humano pode chegar a ser muito mais do que imagine ser –muito mais do que o imaginaram ser – para além das utopias e dos moldes tradicionais. Existe quem ouça sentenças de Ernesto Guevara, como esta, e se escandalize, por motivos religiosos; reduzindo as possibilidades de interpretação ao mínimo, divisam a recusa por “ajoelhar-se” como impiedade ou como uma afronta ao temor por Deus… Há, porém, aqueles que enxergam na reprodução da sentença guevariana uma incitação ao caos e à revolução, um libelo anárquico de recusa de toda autoridade constituída… Pode ser que Guevara tenha querido dizer tudo isso –e é o que parece, embora eu não possa afirmar com convicção, pois não sou telepata. O que eu sei dizer com certeza é que eu não quero dizer necessariamente o que outros dizem, mesmo em citações, e nem faço parte de nenhum clã revolucionário ou conservador, mas do clã da humanidade. Pois, ao contrário da condição simiesca predominante no pensamento ocidental, verdadeiramente revolucionária e perene é a condição humana, a qual não se dobra a conformismos de qualquer tipo.

 

O lado ignorado da força

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Existe uma frase antológica de Rui Barbosa que eu acho extremamente pertinente para se referir ao caso Isabela Nardoni: “A força do direito deve superar o direito da força”. De fato, a força das leis, numa sociedade civilizada, deve superar o direito que a força, aqui entendida como exercício do poder, reivindica para si prevalecendo-se da impotência dos mais fracos. No entanto, como podemos entender o que seja realmente o “exercício do poder”? Penso que tal compreensão seja essencial para analisarmos esse incidente com a menina Isabela, que tanto comoveu o Brasil.

Primeiramente, é necessário dar à mídia o crédito devido como formadora de opinião. Quase a totalidade das informações de que dispomos sobre o caso nós devemos à imprensa -nós, brasileiros comuns, que não tivemos acesso ao julgamento e, portanto, às minúcias do acontecido. Certamente que a liberdade de imprensa é um bem, na medida em que não nos aliena, intelectual e emocionalmente, do que nos circunda e ao que talvez, em outras ocasiões, não daríamos a atenção devida. Mas essa é uma faca de dois gumes; pois na mesma proporção em que os signos são utilizados para informar e/ou comover, também podem servir de arma de manipulação. Destarte, o uso da palavra também é uma forma de exercer o poder.

Exemplar, no que toca ao poder da oratória, também é a atuação do promotor e do advogado de defesa. Ambos estão ali cumprindo papéis necessários para o perfeito trâmite do julgamento, mas isso não implica num resultado perfeitamente equilibrado, numa sentença matemática. Dependendo do uso que fazem da palavra, um lado pode sair ganhando e outro pode sair perdendo.

E não é apenas no âmbito verbal que a “força” exerce sua influência. Como sabemos, um corpo de jurados decide sobre a absolvição ou condenação dos réus acusados de crimes dolosos contra a vida. Por não possuir, geralmente, conhecimentos técnicos sobre direito, esse corpo de jurados fica muito sensível tanto ao discurso do promotor quanto ao do advogado de defesa. E não apenas a isso. Sua “ignorância” o torna suscetível também às reações dos réus e inclusive à bagagem de vida de cada um de seus sete membros. Sem falar nas opiniões preconcebidas de cada um dos diretamente envolvidos com o julgamento, que nunca se perdem completamente, por mais imparciais (ou parciais) que eles se tornem.

Os populares, quem sabe, também fazem reflexos no julgamento. Eivados de paixões e pré-conceitos midiáticos, eles estacionam na entrada do fórum, sedentos de justiça e esquecidos de suas injustiças, bombardeando a consciência dos jurados, do juiz, do advogado, do promotor… Quem não se sentiria intimidado diante de uma platéia assim? Quem não se sentiria comovido? Constrangido? Coagido?

A força do direito deve, sim, ser superior ao direito da força. Mas muitas vezes a sociedade usurpa o papel que caberia apenas e tão-somente ao juiz, fazendo as vezes até mesmo do papel de carrasco; linchamentos da mídia e de populares são praticados desde sempre, como sabemos. Também os agentes constituídos do juízo, advogados e promotores, prevalecem-se de táticas mesquinhas, sofísticas, para ganhar a causa, seja lá motivados pelo sentimento que for. Diante disso, a força que o direito deveria ter enfraquece; o equilíbrio inerente à justiça empalidece a olhos vistos.

Com efeito, a justiça é um conceito até caricatural diante das circunstâncias. Não há equilíbrio que se mantenha sob o influxo de forças tão intensas e opostas, não há venda que cubra seu rosto diante da força de tal tragédia. Por isso talvez, segundo penso, a lei procure abarcar a totalidade daquilo que possa intervir num julgamento, para o bem ou para o mal, permitindo a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o direito do contraditório, o direito de se calar etc. E nisso acerta, alcançando o máximo que poderíamos alcançar da palavra “justiça”, dentro de nossas imperfeições.

O que de fato ocorreu no apartamento dos Nardoni vai permanecer um mistério, e o que podemos decidir por nós mesmos vai depender muito do número de provas não-conclusivas colhidas sobre o caso; talvez por isso caibam tantos recursos, tantas revisões, nos tribunais e entre os leigos da lei. Pois sabemos que, no fim, somente uma prova vai ser conclusiva no julgamento de juízes e de réus: a força suprema da Consciência.

 

Da verdade, de verdade

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Existem, em filosofia, muitas convicções e muitos grupos dispostos a defender seu ponto de vista com unhas e dentes. Isso torna, de certa forma, a busca da verdade uma posição política, isto é, uma organização de idéias em diferentes ideologias em função de uma organização prévia (e muitas vezes insuspeita) de indivíduos em grupos cujos interesses específicos refletem uma preocupação em comum de seus integrantes com a transformação da realidade. Mas essa pode ser uma batalha inócua e titânica, se os diferentes grupos perdem de vista o ponto de equilíbrio, a razão, por privilegiar a própria vaidade… ou a ganância.

Por exemplo: em que medida o interesse de transformação da realidade é o ideal? Qual era o interesse dos ingleses, só para citar um caso conhecido, na abolição da escravatura? Haviam passado pela Revolução Industrial há pouco; precisavam de mercado consumidor. Sei que seria leviano, mesmo assim, questionar a legitimidade de seus ideais. Mas os ingleses administraram a África do Sul até meados do século passado…

Tudo isso, se reforça a tese do grau de politicagem inerente à formulação de teorias, muito mais explicita a necessidade de análise crítica contínua. Hoje se defende um plebiscito sobre a descriminalização do aborto; se a idéia passar pelo crivo da democracia e for aprovada, é de praxe em nossa sociedade tomá-la como verdade absoluta (ou necessária, o que dá no mesmo…). Sobre isso dizia muito acertadamente Francis Bacon: “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”, e embora ele estivesse se referindo, em seu tempo, à autoridade eclesiástica, sua sentença não destitui de poder despódico também outras instituições ou outras formas dominantes do pensar, ou do agir político.

A propósito, uma forma de pensar particularmente influente quase sua contemporânea foi o Iluminismo, que curiosamente elegia Bacon como um de seus santos mártires-patronos, malgrado a forma de proceder dos ilustrados. Voltaire dizia sobre Francis que não havia filosofia natural antes do inglês (e levava em consideração a história da Europa depois do cristianismo, deixo claro); mais tarde, talvez elucidado sobre a biografia de Santo Alberto Magno, reformulou sua afirmação, sem perder a pose e as entrelinhas no entanto; passou a dizer que, antes de Bacon, ficava-se sujeito à validação pela autoridade. Em que pese isso não ser um argumento, de fato, contra a existência de filosofia natural cristã, se Voltaire tivesse procurado se instruir mais, saberia que a maior autoridade intelectual da Igreja, São Tomás de Aquino, desde a escolástica portanto, já aconselhava: “não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão e isto confia-o à memória”. Talvez Voltaire quisesse evitar a fadiga, ou o azar de achar algo que pudesse comprometer a sua tão bem estruturada “luz natural”, criteriosamente construída para combater a ignorância, o preconceito e a superstição… morreu, aliás, aperfeiçoado, pedindo perdão pelo erro de suas idéias anti-clericais, de súbito iluminado por uma luz –evidentemente muito mais natural ao seu espírito, presumo, pelas circunstâncias…

Sobre essas idiossincrasias na compreensão do conceito de “verdade”, lembro-me muito do que li uma vez num livro da Marilena Chauí. Dizia ela que a verdade dos romanos (veritas) era bem diferente da verdade dos gregos (aletheia); enquanto aquela se referia às coisas que foram, esta dizia respeito às que são. A verdade veritas, portanto, dependia muito da credibilidade do narrador, de sua autoridade moral; e a verdade aletheia dependia da coerência interna dos argumentos. Em comum, as verdades eram tidas por inequívocas quando, sempre que possível, o discurso refletia o observável, o factual.

Nem sempre, contudo, o homem pode ter um negativo seguro do mundo natural, como testemunha ocular da verdade. Pode ter um negativo de si mesmo, como ser racional. Assim, revestido da armadura crítica, sofisticada ao nível da argúcia epistemológica, pode chegar a demonstrar o que não é, ao passo que os ideólogos fazem de suas espadas apaixonadas a razão para suscitar invejas, cóleras e contendas, fazendo da história humana um verdadeiro campo de batalha das paixões desordenadas. “Guarda sua espada por hora, Pedro”, já dizia Jesus, o Sereno.