O lado ignorado da força

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Existe uma frase antológica de Rui Barbosa que eu acho extremamente pertinente para se referir ao caso Isabela Nardoni: “A força do direito deve superar o direito da força”. De fato, a força das leis, numa sociedade civilizada, deve superar o direito que a força, aqui entendida como exercício do poder, reivindica para si prevalecendo-se da impotência dos mais fracos. No entanto, como podemos entender o que seja realmente o “exercício do poder”? Penso que tal compreensão seja essencial para analisarmos esse incidente com a menina Isabela, que tanto comoveu o Brasil.

Primeiramente, é necessário dar à mídia o crédito devido como formadora de opinião. Quase a totalidade das informações de que dispomos sobre o caso nós devemos à imprensa -nós, brasileiros comuns, que não tivemos acesso ao julgamento e, portanto, às minúcias do acontecido. Certamente que a liberdade de imprensa é um bem, na medida em que não nos aliena, intelectual e emocionalmente, do que nos circunda e ao que talvez, em outras ocasiões, não daríamos a atenção devida. Mas essa é uma faca de dois gumes; pois na mesma proporção em que os signos são utilizados para informar e/ou comover, também podem servir de arma de manipulação. Destarte, o uso da palavra também é uma forma de exercer o poder.

Exemplar, no que toca ao poder da oratória, também é a atuação do promotor e do advogado de defesa. Ambos estão ali cumprindo papéis necessários para o perfeito trâmite do julgamento, mas isso não implica num resultado perfeitamente equilibrado, numa sentença matemática. Dependendo do uso que fazem da palavra, um lado pode sair ganhando e outro pode sair perdendo.

E não é apenas no âmbito verbal que a “força” exerce sua influência. Como sabemos, um corpo de jurados decide sobre a absolvição ou condenação dos réus acusados de crimes dolosos contra a vida. Por não possuir, geralmente, conhecimentos técnicos sobre direito, esse corpo de jurados fica muito sensível tanto ao discurso do promotor quanto ao do advogado de defesa. E não apenas a isso. Sua “ignorância” o torna suscetível também às reações dos réus e inclusive à bagagem de vida de cada um de seus sete membros. Sem falar nas opiniões preconcebidas de cada um dos diretamente envolvidos com o julgamento, que nunca se perdem completamente, por mais imparciais (ou parciais) que eles se tornem.

Os populares, quem sabe, também fazem reflexos no julgamento. Eivados de paixões e pré-conceitos midiáticos, eles estacionam na entrada do fórum, sedentos de justiça e esquecidos de suas injustiças, bombardeando a consciência dos jurados, do juiz, do advogado, do promotor… Quem não se sentiria intimidado diante de uma platéia assim? Quem não se sentiria comovido? Constrangido? Coagido?

A força do direito deve, sim, ser superior ao direito da força. Mas muitas vezes a sociedade usurpa o papel que caberia apenas e tão-somente ao juiz, fazendo as vezes até mesmo do papel de carrasco; linchamentos da mídia e de populares são praticados desde sempre, como sabemos. Também os agentes constituídos do juízo, advogados e promotores, prevalecem-se de táticas mesquinhas, sofísticas, para ganhar a causa, seja lá motivados pelo sentimento que for. Diante disso, a força que o direito deveria ter enfraquece; o equilíbrio inerente à justiça empalidece a olhos vistos.

Com efeito, a justiça é um conceito até caricatural diante das circunstâncias. Não há equilíbrio que se mantenha sob o influxo de forças tão intensas e opostas, não há venda que cubra seu rosto diante da força de tal tragédia. Por isso talvez, segundo penso, a lei procure abarcar a totalidade daquilo que possa intervir num julgamento, para o bem ou para o mal, permitindo a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o direito do contraditório, o direito de se calar etc. E nisso acerta, alcançando o máximo que poderíamos alcançar da palavra “justiça”, dentro de nossas imperfeições.

O que de fato ocorreu no apartamento dos Nardoni vai permanecer um mistério, e o que podemos decidir por nós mesmos vai depender muito do número de provas não-conclusivas colhidas sobre o caso; talvez por isso caibam tantos recursos, tantas revisões, nos tribunais e entre os leigos da lei. Pois sabemos que, no fim, somente uma prova vai ser conclusiva no julgamento de juízes e de réus: a força suprema da Consciência.

 

Festival Internacional de Documentários – CCBB (RJ)

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É Tudo Verdade – 15° Festival Internacional de Documentário

O festival chega a sua 15ª edição, sempre trazendo o melhor da produção documental de cada ano. A competição internacional de longas e médias-metragens apresenta 12 títulos, rodados nos cinco continentes, além de nove produções na disputa internacional. Entre os longas estrangeiros destaca-se: O Homem Mais Perigoso dos Estados Unidos: Daniel Ellsberg e os Documentos do Pentágono, de Judith Ehrlich e Rick Goldsmith. Indicado ao Oscar 2010 e premiado no Festival Internacional de Documentários de Amsterdam, o documentário retrata o ex-analista militar americano que divulgou papéis secretos, expondo mentiras de cinco presidentes sobre a Guerra do Vietnã.

Nesta mesma competição, O Jogador (The Player), de John Appel, vencedor do prêmio de Melhor Documentário do Festival de Amsterdam 2009. Partindo de uma história familiar, Appel investiga o vício em apostas. Entre os curtas concorrentes, destaca-se o novo filme do cineasta brasileiro radicado na Espanha, Sergio Oksman. Notes on the Other é um ensaio sobre a identidade a partir de um episódio marcante na experiência espanhola de Ernest Hemingway.

SERVIÇO

Data: 10 a 18 de abril
Local: Cinema 1 | Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro (RJ)
Bilheteria/Informações: Terça a domingo, das 10h às 21h | Telefone: (21) 3808-2007
Consulte a classificação indicativa de cada filme

VIRADÃO CARIOCA | Nos dias 9, 10 e 11 de abril (sexta, sábado e domingo) este evento terá ENTRADA FRANCA. As senhas serão distribuídas uma hora antes da apresentação na bilheteria do CCBB. Aproveite!

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Stand-Up Comedy… em livro!

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O stand-up comedy chegou às livrarias. Cabeça de Gordo, do humorista e escritor Fernanndo Ceylão (que está na capa do livro), é uma das apostas da editora Objetiva e traz um texto cheio de referências pop sobre diversos tipos da sociedade atual, como viciados em fast-food, fashionistas, workaholics, sub-celebridades, entre outros.

O Casseta Marcelo Madureira assina a orelha do livro. “Ceylão é o maior humorista brasileiro da nova geração. Nessa obra ciclópica, homérica e megalomaníaca (…) o ousado Ceylão faz uma viagem humorística por diversos tipos de cabeça”, é o que ele diz sobre o autor.

A editora Objetiva deve colocar o livro nas livrarias ainda este mês. Cabeça de Gordo tem 164 páginas e custa R$ 29,90.

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Da verdade, de verdade

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Existem, em filosofia, muitas convicções e muitos grupos dispostos a defender seu ponto de vista com unhas e dentes. Isso torna, de certa forma, a busca da verdade uma posição política, isto é, uma organização de idéias em diferentes ideologias em função de uma organização prévia (e muitas vezes insuspeita) de indivíduos em grupos cujos interesses específicos refletem uma preocupação em comum de seus integrantes com a transformação da realidade. Mas essa pode ser uma batalha inócua e titânica, se os diferentes grupos perdem de vista o ponto de equilíbrio, a razão, por privilegiar a própria vaidade… ou a ganância.

Por exemplo: em que medida o interesse de transformação da realidade é o ideal? Qual era o interesse dos ingleses, só para citar um caso conhecido, na abolição da escravatura? Haviam passado pela Revolução Industrial há pouco; precisavam de mercado consumidor. Sei que seria leviano, mesmo assim, questionar a legitimidade de seus ideais. Mas os ingleses administraram a África do Sul até meados do século passado…

Tudo isso, se reforça a tese do grau de politicagem inerente à formulação de teorias, muito mais explicita a necessidade de análise crítica contínua. Hoje se defende um plebiscito sobre a descriminalização do aborto; se a idéia passar pelo crivo da democracia e for aprovada, é de praxe em nossa sociedade tomá-la como verdade absoluta (ou necessária, o que dá no mesmo…). Sobre isso dizia muito acertadamente Francis Bacon: “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”, e embora ele estivesse se referindo, em seu tempo, à autoridade eclesiástica, sua sentença não destitui de poder despódico também outras instituições ou outras formas dominantes do pensar, ou do agir político.

A propósito, uma forma de pensar particularmente influente quase sua contemporânea foi o Iluminismo, que curiosamente elegia Bacon como um de seus santos mártires-patronos, malgrado a forma de proceder dos ilustrados. Voltaire dizia sobre Francis que não havia filosofia natural antes do inglês (e levava em consideração a história da Europa depois do cristianismo, deixo claro); mais tarde, talvez elucidado sobre a biografia de Santo Alberto Magno, reformulou sua afirmação, sem perder a pose e as entrelinhas no entanto; passou a dizer que, antes de Bacon, ficava-se sujeito à validação pela autoridade. Em que pese isso não ser um argumento, de fato, contra a existência de filosofia natural cristã, se Voltaire tivesse procurado se instruir mais, saberia que a maior autoridade intelectual da Igreja, São Tomás de Aquino, desde a escolástica portanto, já aconselhava: “não atentes a quem disse, mas ao que é dito com razão e isto confia-o à memória”. Talvez Voltaire quisesse evitar a fadiga, ou o azar de achar algo que pudesse comprometer a sua tão bem estruturada “luz natural”, criteriosamente construída para combater a ignorância, o preconceito e a superstição… morreu, aliás, aperfeiçoado, pedindo perdão pelo erro de suas idéias anti-clericais, de súbito iluminado por uma luz –evidentemente muito mais natural ao seu espírito, presumo, pelas circunstâncias…

Sobre essas idiossincrasias na compreensão do conceito de “verdade”, lembro-me muito do que li uma vez num livro da Marilena Chauí. Dizia ela que a verdade dos romanos (veritas) era bem diferente da verdade dos gregos (aletheia); enquanto aquela se referia às coisas que foram, esta dizia respeito às que são. A verdade veritas, portanto, dependia muito da credibilidade do narrador, de sua autoridade moral; e a verdade aletheia dependia da coerência interna dos argumentos. Em comum, as verdades eram tidas por inequívocas quando, sempre que possível, o discurso refletia o observável, o factual.

Nem sempre, contudo, o homem pode ter um negativo seguro do mundo natural, como testemunha ocular da verdade. Pode ter um negativo de si mesmo, como ser racional. Assim, revestido da armadura crítica, sofisticada ao nível da argúcia epistemológica, pode chegar a demonstrar o que não é, ao passo que os ideólogos fazem de suas espadas apaixonadas a razão para suscitar invejas, cóleras e contendas, fazendo da história humana um verdadeiro campo de batalha das paixões desordenadas. “Guarda sua espada por hora, Pedro”, já dizia Jesus, o Sereno.