Prêmio Pierre Verger

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O Concurso de Vídeo Etnográfico da Associação Brasileira de Antropologia premiará produções cinematográficas/videográficas e produções fotográficas de caráter antropológico. Poderão ser inscritas na modalidade “Vídeo Etnográfico” produções nacionais e internacionais de documentários, vídeos experimentais e de animação que abordem questões socioculturais contemporâneas sobre pessoas, grupos sociais, processos históricos e eventos relacionados ao fazer etnográfico, abordando temas de interesse antropológico. As inscrições seguem até 30 de abril. Ficha de inscrição e outras informações: www.abant.org.br/.

Somente poderão concorrer na categoria ensaio fotográfico antropólogos de formação, desde que inscritos junto à RBA. Na categoria Vídeo Etnográfico, a direção do vídeo ou do filme deve ser exercida predominantemente por antropólogos.

-Mais informações no edital.

 

Quando a ignorância é virtuosa

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Daria tudo o que sei pela metade do que ignoro, dizia René Descartes. É uma das frases mais célebres do famoso pensador francês. E creio representar mais a natureza humana que o Cogito Ergo Sum. Porque o argumento do cogito exclui do âmbito existencial os animais irracionais -e alguns dentre os racionais também. E tanto aqueles quanto estes existem de fato.

Como posso saber se não estou equivocado, se meus sentidos não me enganam, se nada do que existe de fato existe? Não posso. Aceito minhas limitações e faço afirmações somente sobre aquilo que percebo. Querer saber sobre tudo é muito pretensioso, é quase como se declarar deus, atitude típica de quem recebeu muita influência do pensamento renascentista. Querer estar, por si só, imune ao erro, como Descartes o quis, redunda em considerações estapafúrdias sobre assuntos que escapam a nossa compreensão e alcance.

Porque, na verdade, René Descartes não acreditava poder alcançar “verdades absolutas”. Nisso ele se distinguia dos renascentistas. O que ele acreditava poder alcançar eram “verdades necessárias”, aquelas acessíveis aos homens, pois, segundo o francês, a “verdade absoluta” era de domínio exclusivo de Deus. No entanto, se o conhecimento da realidade nos era garantido pela existência de Deus, que preserva sua essência, e se, como afirmava Descartes, deveríamos nos depurar dos enganos, então ele entra em contradição; porque Deus nos esconderia a realidade da realidade ou, por outro lado, como poderíamos crer num deus “enganador”, ao mesmo tempo mentiroso e honesto? Isso parece ir contra sua própria idéia de Deus, de realidade e de conhecimento. René, nesse ponto, procura equacionar o conflito sugerindo a existência de um demiurgo, uma espécie de segundo deus responsável por ludibriar os homens. Nisso ele volta à arrogância do conhecimento absoluto e se assemelha, pela vacilação e pelo obscurantismo, aos renascentistas maneiristas e barrocos.

De qualquer forma, voltando ao assunto principal, você já se perguntou sobre a primazia do ovo ou da galinha? É claro que não. Agir assim é fazer como os cachorros, que correm atrás do próprio rabo, descrevendo círculos. Saber que o ovo veio antes da galinha, ou vice-versa, seria inútil se não fosse impossível, não modificaria em nada nossa vida. Ou a vida de Adão e Eva, porque discutir quem saiu da costela de quem é assunto que não interessa nem a médico-cirurgião ou obstetra, quiçá a clérigos e filósofos…

Mas eu entendo o René. Ele foi um homem de seu tempo, cheio de doutrinas contraditórias procurando conviver harmoniosamente, numa Europa afligida por doenças e guerras. Nasceu e viveu numa época dominada pelos céticos, na qual ou se adotava uma postura radical ou se ficava à deriva, náufrago num mar tempestuoso de dúvidas. E, permanecer na dúvida, havendo tantos homens ainda convictos da salvação eterna, é angustiante.

Dá para entender o porquê de Descartes não conviver bem com o reconhecimento da própria ignorância. Mas ele poderia ter encarado isso de um ângulo mais saudável, como o fez Sócrates, que viveu também numa época de crise epistemológica. Pois o negativismo radical do grego não empalideceu seu amor natural pela virtude –muito pelo contrário. Sócrates permaneceu sábio na própria ignorância, aqui entendida como humildade e mansidão de espírito.

Libertar-se das instituições, como um porto seguro, e refugiar-se em si mesmo, como um ponto arquimediano, é um ato de denodo e revelador de uma personalidade amiga do saber, sem dúvida. Mas se tornar refém de si mesmo, como um demiurgo arrogante, é já um sintoma de desequilíbrio que compromete o caminho do bom senso. René deveria ter ouvido o próprio conselho.

 

(R)emendando Erros

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Quando assistimos a esse multiplicar de selvageria num país cujos índices de educação têm se ampliado, ficamos perplexos. Era de se supor que as pessoas, quando confrontadas com universos culturais diversos, tornassem-se mais civilizadas, convivessem melhor. Entretanto, todo mundo por aqui continua incendiando ônibus, guerreando em estádios de futebol e espancando calouros em universidades. Para completar, e embora as estatísticas oficiais sugiram o contrário, avaliação se não me engano da Unesco põe o Brasil entre os piores em interpretação de textos e matemática. O que será que acontece para um país se tornar tão resistente à razão, à relação física entre causa e efeito?

Se o Brasil não pertencesse ao planeta Terra, acredito que ninguém estranharia. Se não me engano, os gastos com presidiários são muitas vezes superiores aos valores investidos em nossos estudantes. Não obstante, nossos presídios continuam sucateados, ao passo que colégios são abarrotados de computadores e até de aparelhos de ar-condicionado. Para compensar os gastos com segurança, então, marginais são liberados de cárceres lotados antes mesmo de cumprirem a pena correspondente, para parasitar a sociedade; para compensar os índices de reprovação escolar, logo, marginais são transferidos de escola em escola, para ameaçar e matar professores e colegas.

Tudo por aqui tem capa para encobrir a falta de conteúdo, tem folhas para suprir a imperícia das palavras, tem gente (de sobra) para disfarçar o sumiço de cidadãos. Tapete não falta para esconder poeira. O Brasil tem uma das maiores legislações do mundo, mas há tantas contradições e incoerências nela que a Lei mais facilita a má-fé que a aplicação da justiça. Como se não bastasse, embora as pessoas exijam o cumprimento das leis, são elas as primeiras a contrariá-las, em certos casos. De que adianta, por exemplo, a maioridade legal ser diminuída, se os presídios não comportam nem os bandidos “maiores”, e todos, por isso, acabem tendo que ser soltos, mais dia menos dia?

O problema está na gênese, não no parto propriamente dito. Você não pode ensinar alguém a ser ético num lugar onde o imaginário popular elegeu a “Lei de Gérson” como código de conduta universal, por exemplo. Para compensar a inadequação fundamental do brasileiro, as instituições são legitimadas como tábuas da salvação (e contenção) ante nosso dilúvio cultural. Mas “quem poderá nos defender”? A família, a religião, a escola… a Constituição? Tudo isso está frágil e mal estruturado, fundamentado na areia, na orla do caos; não haveria como andar, ter “ordem e progresso” se posta a carroça na frente dos burros.

No Brasil, ainda vale o que Rui Barbosa disse, há muito tempo: Há tantos burros dando ordem em homens inteligentes que às vezes penso que burrice é Ciência. E olha que os burros, naquela época, ainda andavam na frente…

 

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”

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Às vezes as pessoas menos religiosas se deparam com mensagens espirituais e as interpretam de forma minimizada, unívoca. Se foi dito que o importante é o amor, que seja. Ou não seja. De fato, não parece haver maiores implicações numa sentença tão simples. Se a sentença é complexa, no entanto, acusam as religiões de serem obscuras com o propósito de manipular, vindo eles, por isso, a cair no terreno do teísmo ou ateísmo, duas das epidemias mais típicas da modernidade. Este é o maior problema do mundo moderno: tem pressa para tudo, até para julgar.

Se soubessem que até mesmo os assuntos mais simples, inerentes a todas as religiões e épocas, são bem individualizáveis se inseridos em determinados contextos, surpreender-se-íam. “Amor”, por exemplo, palavra genérica utilizada para se referir a qualquer tipo de apego, tinha inúmeras formas e significações na Grécia antiga; poderia ser “eros”, se se referisse ao amor carnal entre homem e mulher, “filos”, se falasse da afeição fraterna entre homens, como a irmãos (daí “filantropia”), e “agápe”, se estivéssemos querendo denominar o amor não correspondido. Mais tarde, a tradição filosófica cristã associaria “agápe” ao Primeiro Amor, aquele que parte de Deus e independe de qualquer reconhecimento.

Em relação aos textos sagrados do cristianismo, não há ponto sem nó; uma sentença que soe obscura no Êxodo pode ficar bem clara nos Atos dos Apóstolos, se você tiver paciência para percorrer o caminho. É um caminho que precisou e precisa ainda ser trilhado, se quisermos chegar à “Canaã”, identificada como a Verdade, subjacente ao tempo e à natureza de todas as coisas. O caminho, mesmo por isso, é tortuoso; pode significar 40 anos no deserto ou séculos de exegeses dos textos sagrados.

Mesmo hoje, são muitas as interpretações que podemos fazer das sagradas escrituras, especialmente dos Evangelhos –por motivos óbvios, o ápice da revelação cristã. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus. O que Ele quis dizer, no entanto? Jesus falava através de muitas metáforas e parábolas, sujeitas a equívocos interpretativos; talvez ele quisesse dizer que era preciso se depurar dos erros para conhecê-Lo. Faz sentido se levarmos em conta que a expressão pressupõe outros caminhos, o erro e a morte; e fica mais intrigante ainda se percebemos que há uma gradação na fala de Jesus, ou seja, um recurso estilístico que por si só demonstra a necessidade de percorrer um caminho, que não é bem “um caminho”, mas o caminho, cujo artigo definido individualiza e exclui. Precisaríamos tê-Lo antes conhecido, portanto, para finalmente percorrermos o caminho e reconhecê-Lo; não seria, assim, uma jornada de conhecimento, mas de reconhecimento, circular, de regresso e humildade, renunciando à “Árvore do Conhecimento” e ao paraíso da tentação, o exato oposto da árida Canaã.

Eis aí um exemplo da riqueza das religiões, para além de todos os modernosos preconceitos. Artefatos culturais só alienam se não nos despimos de nosso pequeno mundo particular para conhecermos outros. Se houve e há tirania, sua raiz está na estreiteza e no orgulho humanos, não nas instituições –e se há um caminho de morte a ser evitado, esse é o de nossa mesquinhez.