Buscar
  • Myh Farias

Adultização infantil, como perceber e evitar?

A entrada precoce da criança no mundo adulto está cada vez mais comum e é bem assustador. Só pude perceber esses aspectos pela diferença no comportamento do meu filho e dos seus amigos. A adultização é perigosa, silenciosa e encurta a infância, não permitindo que a criança viva essa fase em sua totalidade.



Sabemos que a infância não é mais a mesma que a vinte anos atrás. Mas podemos, como pais, estender a essência da infância que tivemos aos nossos filhos. Estar presente, brincar, ser amigos de nossos filhos desde cedo é muito importante para o desenvolvimento deles. Mas estar atento ao comportamento dos nossos filhos neste desenvolvimento é primordial para que eles não percam o melhor dessa idade. Na era da tecnologia avançada e de toda e qualquer informação ser acessível em um click, é necessário estarmos atentos as sutis transformações nas pequenas atitudes de nossas crianças, e isso só é possível com muito, mais muito diálogo.


Meu filho tem seis anos e sempre faz amigos novos, seu ciclo de amizade normalmente tem a diferença de idade de um ano ou dois anos a mais que ele. Enquanto a brincadeira rola, noto o quanto meu filho ainda carrega a inocência de uma criança de seis anos e comecei a trabalhar com ele algumas coisas como: falar o necessário e o que condiz com o ambiente, nas brincadeiras as coisas precisam ser resolvidas entre os amigos e caso alguém faça algo errado isso precisa ser conversado com o amigo e ele deve conversar com os pais dele (e não você meu filho). Dessa forma, meu filho foi entendendo como as coisas funcionavam entre amigos (já que ele foi criado em ambientes sem crianças). Essa etapa é desafiadora e muito boa, sendo uma experiência e tanto para nós dois.


Quanto aos amigos, notei certa malícia adulta, coisa que meu filho está longe de perceber. Aí é que começa a reflexão: Eu fui errada em minha criação em preservar a essência infantil do meu filho? Ou seus amigos estão num processo de adultização precoce?

A maior parte das suas amizades não gostam de brincar de bonecos e carrinhos; não gostam de ver desenhos; raramente brincam de desenhar; brincar de massinha, dominó ou jogo da memória nem pensar. A resposta que eles dão ao meu fliho é que tudo isso é bricadeira de criança (E todos eles são o que?!). Eles querem brincar de luta, de desafios, de bola (com boladas que se pegar em alguém quebra um braço), brincar de skate com manobras radicais. Ver vídeos de clipes de funk ou hip hop pra lá de sensuais. Percebe-se já certa agressividade nas brincadeiras, impaciência para ensinar, indisposição para ceder e muita astúcia nos diálogos.


Certa vez meu filho entrou em casa e me perguntou: mãe eu já transei com a minha namorada? Eu respondi: Você tem namorada? Ele disse: não, não tenho idade para namorar. Continuei: Então de onde você tirou isso? Ele respondeu: Meu amigo me perguntou (amigo de sete anos), e como eu não sabia, vim te perguntar. Essa é uma das espécies de adultização mais vistas hoje em dia. O acesso e a banalização a informações de conteúdo adulto está descaracterizando a fase infantil das crianças. Conversei com meu filho sobre tudo isso de uma forma simples e séria, sem fantasiar, ridicularizar e brincar sobre essas coisas. Sem menosprezar o significado e sentido dessas palavras e fazendo-o compreender da melhor forma possível.


A adultização como muitos pensam não é (só) com gênero feminino pela erotização infantil, onde as crianças são super sensualizadas em gestos, comportamentos, fala e vestimenta. Ela ocorre também com meninos e são todos aqueles comportamentos, gestos e fala que eliminam a infância daquela criança fazendo-os interpretarem papéis adultos. Quem foi que falou que uma criança com sete, oito, dez ou doze anos não pode brincar de carrinho, de dominó ou de massinha? Por que essas atitudes são permissivas pelos pais? Será que os pais percebem tais comportamentos?


Brincamos (meu marido e eu) de todas essas coisas com o nosso filho, mas raramente meu filho encontra alguém que goste de brincar dessas coisas. Quando ele brinca de bola com alguém tem a paciência de ajudar, ensinar e se for menor, brincar com leveza. As brincadeiras de luta não são excluídas, mas são ensinadas que não é para acertar, ferir ou machucar alguém. Os vídeos e as músicas (como funk e hip hop) são selecionados porque entendemos que tudo tem hora e que não é hora para nosso pequeno grande menino ouvir ou ver certas coisas... e explicamos tudo isso a ele.


A adultização, infelizmente, começa em casa e pode ser até inconsciente pelos pais, talvez a falta de tempo em atentar-se aos detalhes, cultivar boas atitudes, brincar e mostrar que as brincadeiras não tem idade, sensibilizar e deixar ser sensibilizado pelo seu filho, ter reciprocidade e, principalmente, ser presente, saber todas as coisas sobre seu filho, ser seu melhor amigo (a), possam evitar a adultização e deixar as coisas fluirem no seu tempo. Não deixe seu filho ser refém dos meios de comunicação, das tecnologias e das pessoas que os cercam.


Outro problema que aparece de forma geral e contribui para a adultização é a cultura, existe uma consciência coletiva que acredita que o gênero masculino pode (ou deve) ser sim, agressivo, mal educado, e que, não tem problema algum o menino ter acesso desde cedo a conteúdo sensual e erótico, porque, afinal de contas é homem... e isso vai deixá-lo mais macho. Aqui homens não choram, não podem se abraçar, dar um beijo no outro, dizer o que sente pelo outro, porque isso é coisa de "gay". É triste, mas vejo, frequentemente, essas características desde muito jovem. Como, desta forma, teremos homens afetivos e com sensibilidade?


Portanto, queridas famílias, atentem-se ao desenvolvimento dos seus filhos. Não deixem que eles pulem essa fase maravilhosa que é a infância. Reflitam sobre a enorme possibilidade que existe (a vocês pais) de voltarem a infância e mostrarem a eles as inúmeras "brincadeiras de criança" que podem (e valem a pena) praticarem com outras crianças. Faça-os perceberem as maravilhas dessa idade, notem a importância de assistirem e escolherem músicas e vídeos juntos e cultivarem sempre um diálogo sincero. Porque essa fase passa muito rápido e depois o tempo será tão curto para reviverem essas oportunidades que só a infância reserva.


Enorme abraço e até a próxima.

0 visualização
Prazer, essa sou eu...

    ... Apaixonada pela vida, amante das coisas simples. Movida pela energia da natureza e pela luz de Deus. Constituída pelos amores: do melhor amigo que virou marido Lê, do meu filho Gui meu maior professor e de um peludinho dog chamado Bup. Melhor equipe do mundo, no qual, compartilho muitas experiências e grandes lições. Eterna aprendiz na vida, descobrindo a arte da culinária e mãe em tempo integral. Essa sou eu neste momento, mas não se acomode, sou uma pessoa em constante mudança, ou melhor dizendo, uma metamorfose ambulante.

 

  • White Facebook Icon

© 2023 by Going Places. Proudly created with Wix.com

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now